Sex, 18 de Maio de 2012
Entrevista: Hermes Barolli PDF Imprimir E-mail
Escrito por Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro e Tiago Damasceno ~Sensui~ Revisão e Edição: Daniela Rigon e Jhomar Nando   
Sáb, 09 de Maio de 2009 13:32

Hermes Barolli
 
 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – Hermes Barolli, você é corinthiano? 
Hermes Barolli – Não sou, não nasci corinthiano, analfabeto, desdentado e careca. Sou Palmeirense, graças a Deus. 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – AEEEEEEE um Palmeirense. 
Hermes Barolli – A galera do Sport aproveita para tirar sarro, pois é o ultimo ano que vocês tiram sarro da gente. 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – Sensui, "bora" com perguntas, você tem alguma? 
 
Tiago Damasceno ~Sensui~ – Vamos lá. Hermes Barolli, é mais difícil Dublar ou Atuar? 
Hermes Barolli – Cara, a dublagem é uma atuação mais específica, então no teatro, na TV e no cinema eu construo o personagem como quero. Na dublagem o personagem já está pronto, já está construído, apenas tenho que ter a humildade para constituir igual o original, então é um pouco mais desafiante. Não gosto de dizer que é difícil, quando dizemos que algo é difícil nunca conseguimos, mas quando é desafiante nós vencemos os desafios. No desafiante se exige a técnica específica, uma interpretação pronta que tenho que seguir à risca. 
 
Tiago Damasceno ~Sensui~ – Qual o personagem mais difícil de ser dublado? 
Hermes Barolli – O mais difícil? Cara, muitos foram desafiantes. O Clube da Luta, que é um filme bem louco, bem legal, bem desafiante, com o Edward*, que é um ator impressionante, acho que foi um trabalho meio complicadinho. Alguns animes são encrencados por causa dos desenhos. Sempre que o desenho é mais louco, umas caixinhas que abrem e fecham, é mais complicadinho. Os Cavaleiros dublado em japonês é muito mais complicado do que dublado em espanhol, porque japonês já não entende muita coisa, e também não existe um sincronismo como a nossa dublagem precisa ter, então é meio por ai. 
 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – Como é dar vida a um dos personagens marcantes para o público otaku, porque tem o antes e o depois dos Cavaleiros, qual a repercussão na sua vida que os Cavaleiros tiveram? 
Hermes Barolli – Os Cavaleiros deve ter sido o meu primeiro anime, e é o começo da dublagem de animes no Brasil. A primeira vez que fizemos isso em 1994 não tínhamos noção do que era, a primeira cena que fiz foi o Seiya arrancando a orelha do outro lá, a impressão que tínhamos é que não fosse pegar, e nos enganamos completamente. Em 2004 refizemos a séria, sabendo do que se tratava, dando uma atenção maior, com fãs que acompanhavam impedindo que fizéssemos algum erro. Os Cavaleiros é um marco na dublagem brasileira. Antes disso os atores não eram reconhecidos, pelo menos ninguém tinha vontade de saber quem está por trás das vozes e Cavaleiros vem trazer isso. A partir disso que começou a ter os fãs, antes disso trabalhávamos e tínhamos vantagens e desvantagens, hoje em dia, quando os fãs ficam sabendo de uma nova dublagem, já invadem o Orkut para falar como acham que deve ser e como não deve ser. Mas valeu a pena por conta disso, eles ficaram mais atentos ao nosso trabalho, e nós começamos a perceber que a responsabilidade do trabalho era grande, e o alcance do trabalho pelo país começou com os Cavaleiros do Zodíaco , então é um marco não só na minha história como na história da dublagem brasileira. 
 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – Porque as histórias de animes chamam tanta a atenção dos Brasileiros, sendo que são culturas totalmente diferentes e traz tanta gente para eventos de anime? 
Hermes Barolli – Eu viajo pelo Brasil inteiro com eventos e sempre tem pessoas apaixonadas por anime. No caso de Cavaleiros, a história prende a atenção, nós sempre queremos saber o que acontece no episódio seguinte, porque sempre tem um passo a mais a ser dado, um novo objetivo a ser alcançado. Eu acho que isso fez o sucesso de Cavaleiros baseado em várias lendas, e ficamos presos a essas histórias, e acho que graças a Cavaleiros os fãs começaram a se interessar, querer conhecer novas séries. Mas ainda não chegou a um décimo que é no Japão, lá possui 600 animes por ano, aqui chega a uns 10. Com a Animax, isso chegou um pouco mais forte, mas o legal é que junto com essa cultura de anime, veio tudo junto, veio o cosplay, o dublador, e lá no Japão o dublador é famosíssimo, o Seiyuu** é um artista famoso no Japão, dá autógrafo pela rua. Aqui não chegamos a esse ponto, somos apenas conhecidos dentro dos eventos, mas quando saio andando pela rua ninguém me reconhece, não tem isso. 
 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – Sabe o que está acontecendo hoje em dia Hermes Barolli? Hoje em dia o pessoal dá mais valor na legenda do que na dublagem, por exemplo, eu vi a dublagem de BLEACH e o pessoal totalmente ignorou a dublagem de BLEACH e disse que não gostou, porque acontece isso? 
Hermes Barolli – É uma impressão sua. Nós vivemos num país que infelizmente pelo menos 130 milhões de brasileiros só conseguem acompanhar um produto se ele estiver dublado, vivemos em um mundo em que as pessoas acham que todo mundo anda de avião, que lê legenda com qualidade, e não é uma realidade, o brasileiro mal sabe ler, quem dirá ler na pressa que uma legenda exige, então o público de crianças, idosos, deficientes visuais, analfabetos e analfabetos funcionais, formam um público de 130 milhões de pessoas que não conseguem acompanhar se não estiver dublado. Então o que acredito é que, como consumidor, eu tenho o direito de escolha, posso assistir legendado ou dublado, e escolho na minha casa como vou fazer isso, e o DVD veio trazer isso. Na nossa casa pegamos o controle remoto e escolhemos: "Ah, hoje vou ver legendado, dublado, no original", então todas as coisas são necessárias e fundamentais, e a lei exige que se tenha a dublagem e a legenda, porque o público precisa escolher isso, e a TV Digital vai nos trazer isso. Na minha casa vou poder escolher o formato que eu quero acompanhar, então o direito do consumidor tem que ser respeitado, se o cara prefere legendado é um direito dele. 
 
Tiago Damasceno ~Sensui~ – Na época, ou seja, na Fase dos Cavaleiros do Zodíaco, ouve essa explosão toda que acabou chegando ao Brasil. Como foi essa fase durante os Cavaleiros do Zodíaco, o que mudou na sua vida quando os Cavaleiros do Zodíaco explodiu aqui no Brasil? 
Hermes Barolli – Foi muito especial, nós estávamos acostumado no anonimato, de repente você começa a receber carinho do Brasil inteiro, é gratificante. E nessa época que estava começando a internet facilitou para os fãs chegarem até nós, e os fãs são sempre muito carinhosos, então é uma massagem de ego eterno. Nós temos que nos segurar se não ficamos com um ego inflado, o que é o calcanhar de Aquiles do ator, sempre que ele acreditar que é o máximo ele vai rodar. Então os fãs vêm sempre falando sempre com muito carinho, e nós temos que aceitar e responder com mesmo carinho, mas botar o pé no chão e saber que amanhã tem mais um jogo e temos que continuar concentrado nisso, porque o professor pediu e nós precisamos ganhar outra partida. 
 
Italiano – Naquela época, como o Sensui disse, Cavaleiros do Zodíaco teve uma repercussão muito grande para as crianças. Hoje em dia você é reconhecido pelas ruas, mais como Hermes Barolli ou mais como Dublador de Seiya? 
Hermes Barolli – Na rua eu não sou reconhecido de nada, nem como Hermes Barolli nem como Seiya, eu ando por aí numa boa, mas o Seiya está maior que tudo. Como a dublagem foi a arte que mais me dediquei, ele (Seiya) é a dublagem mais forte. Quando estou no teatro e alguém me reconhece, reconhece que sou o Seiya pela voz, ainda não tem o reconhecimento da imagem de cinema e novela. 
 
Italiano – Exatamente o que o pessoal está falando aqui, eles estão te escutando na rádio e estão dizendo que parece que é o Seiya falando. 
Hermes Barolli – É mais ou menos, minha voz está mais pesada, estou mais velho, comecei a fazer o Seiya com 18 anos já estou com 23. 
 
Italiano – Durante sua vida, essa profissão de dublagem trouxe algum benefício adicional ou abriu portas para alguma área? 
Hermes Barolli – É, foi através da dublagem que entrei nessa profissão. Talvez eu não fosse ator, talvez nem tivesse talento para isso, eu queria ser jogador de futebol, até os 15 anos esse era meu sonho. Comecei a dublar com 10 anos de idade, então eu ficava dividido, mas a dublagem já me dava dinheiro e o futebol ainda não, então eu fiz umas contas e pensei: Se eu for um jogador de futebol, lá para os 30 anos estarei me aposentando, se for ator, lá para os 30 anos estarei começando a fazer minha carreira, então escolhi ser ator por conta disso. Achei que tinha muito mais tempo para vencer e crescer que no futebol, e aí eu posso jogar fazendo teatro, e fazendo teatro posso jogar uma bolinha. Hoje mesmo dei um "couro" no rapaz jogando Winning Eleven, você tem que ver! Eu jogando com Náutico e o cara com o Sport (risos). 
 
Felipe (otaku no evento) – Quando você viu o roteiro de Cavaleiros, você achava que ia fazer esse sucesso? 
Hermes Barolli – Cara, não. Parecia que não. A primeira cena que fiz era uma cena violenta onde meu personagem arrancava a orelha do personagem lá, o Cásios. A impressão que tive era que isso não ia fazer sucesso. 
 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – Antes dos Cavaleiros do Zodíaco, os Tokusatsus eram bastante conhecidos, e hoje em dia estão caindo no esquecimento. O que você tem a falar sobre tokusatsus, porque o primeiro tokusatsu que me entendo de gente, o primeiro que eu vi foi o Nacional Kid (risos). 
Hermes Barolli – Eu também, só que eu assisti na Boomerang, na reprise (risos). 
 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – Foi um dos primeiros, depois veio Black Kamen Rider, Jiraya, Jaspion, Jiban... 
Hermes Barolli – Jaspion foi meu primeiro trabalho, e também umas das primeiras produções, porque quando dublei Jaspion eu tinha 10 anos, como primeiro ano de dublagem eu fazia o Kenta no Jaspion, no Jiraya fazia o Manabu, meus principais trabalhos de começo de carreira foram em tokusatsus. 
 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – Você deve ter visto também que o mesmo rosto que o pessoal fazia nos tokusatsus está fazendo nos animes, igualzinho. O pessoal está recriando os tokusatsus em animes, porém estão esquecendo os tokusatsus. Hoje em dia o único que engatou foram os Senpais que é os Power Rangers. 
Hermes Barolli – Eu também participei de Power Rangers, em três anos seguidos. Eu acho que ainda tem espaço para americano estar copiando, ainda há espaço para os tokusatsus. 
 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – Tem uma pergunta de um ouvinte aqui, ele está perguntando qual o anime que mais deu trabalho para fazer a dublagem? 
Hermes Barolli – Estava tentando lembrar o nome do anime, mas não me vem na memória. O nome é meio complicadinho porque era sem pé nem cabeça, mas era um anime muito bom. Mas fora esse, os Cavaleiros, porque tive mais participação, então tinha muita cena complicada, em minha opinião acho que foi bem desafiante. 
 
Tiago Damasceno ~Sensui~ – Qual foi a seqüência de Cavaleiros que mais te marcou, qual a saga que mais te marcou? 
Hermes Barolli – Eu vou à contramão dos fãs, eu acho a Saga dos Elísios incrível e sensacional, eu dirigi a Saga Inferno com meu pai e a Saga dos Elísios sozinho, e acho que por fechar um ciclo, por estarem mais dentro da saga. Os traços são mais bonitos, a história mais legal, ela chega no auge dos Cavaleiros, o Seiya morre no final. Inclusive sobre a Saga dos Elisios, no meu site www.centraldubrasil.com.br, tem o making of da Saga dos Elisios, onde eu peguei uma câmera e filmei o pessoal arrumando os textos, errando, acertando, que os fãs nunca viram, e que gostei do resultado. 
 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – Qual o conselho que você dá para o pessoal que quer se tornar um dublador? 
Hermes Barolli – Primeiro passo é se tornar um ator, e não pegar apenas um registro. O ser ator é o que mais vale, e você irá precisar dessas ferramentas para reinterpretar grandes atores que aparecerão na carreira de dublador, porque não é só anime que aparece para fazer, é filme, novelas, desenhos animados, e mais um conselho é: se especialize nessa área. 
 
Juan (otaku no evento) – Recentemente vi que saiu no Japão a Saga de Zeus de Cavaleiros do Zodíaco, provavelmente estará saindo para Anime, então você falou que dublou Seiya quando tinha 18 anos, você acha que haverá condições de continuar dublando Seiya, pois disse que sua voz mudou. 
Hermes Barolli – Tomara que chegue logo, e eu esteja em condições, porque os outros atores já estavam com uma idade calibrada, a voz muda pouco. Agora, como eu estava com 18 anos, a voz mudou um pouco com relação aos meus amigos de Saga. O mais legal nos desenhos de Cavaleiros do Zodíaco é que os fãs "não permitem que mudemos os dubladores", agora a discussão lá é entorno do LOST CANVAS, perguntam se vou fazer a dublagem. Se ficar a meu encargo decidir, com certeza irá ser um elenco renovado, embora seja reencarnações, possuem nomes diferentes, outro traço, então deverá ser outra voz, com exceção de dois personagens que não mudaram, mas todos irão ter vozes novas, para dar chance para pessoas novas. 
 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – Só para acabar, sempre temos vinhetas aqui de personagens de animes, de pessoas do Japão, e nós queremos a sua também para pôr na rádio... 
Hermes Barolli – Pagando bem (risos). 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – Ouviu essa Tiago Damasceno ~Sensui~? (risos). 
Tiago Damasceno ~Sensui~ – Ouvi, Ouvi (risos).
Hermes Barolli – Foi contar o Dinheiro na carteira. 
 
Daniel Eduardo Monteiro ~Monstro~ – Então, nós vamos falar "Rádio Animix A Rádio de Todos os Seus Momentos", e você vai dar o gritinho do Seiya. 
Hermes Barolli – Pô, esse gritinho é brincadeira, não é o SHUN não (risos). Tá ok, vamos lá. 
 

 "RÁDIO ANIMIX A RÁDIO DE TODOS OS SEUS MOMENTOS E METEORO DE PEGASUSSSSSSSSSSS" 



Confira o video da entrevista:



 
 Notas:
* Edward Norton, ator.
** Seiyuu são os dubladores japoneses.

 
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