Olá queridos leitores da Rádio Animix,
Como vimos na coluna da semana passada (se você não conferiu, pode fazer isso clicando aqui), basicamente quase todos os animes emanam de uma só fonte cultural: a ressurreição do espírito japonês pós-guerra. Eu disse “quase” porque existem alguns estilos pós-modernistas que não seguiram esta tendência, dois deles são os estilos denominados “Tezukano” e o “Superflat”. Como o assunto do Superflat é bastante complexo, vou demorar um pouco mais para elaborá-lo, então, vamos começar pelo mais simples: o “Tezukano”.
Tezukano: acusado de matar Deus
“Tezukano” é uma denominação criada por mim mesmo, DJ Gendou (Murilo Abud) aos estilos de anime que seguiram a linha do desenhista considerado o deus da animação japonesa, Osamu Tezuka. Antes de começar, vamos ver um pouco da história fascinante deste grande mestre dos animes!
Sua santidade, Osamu Tezusa!
Sua grande produtividade e suas técnicas e gêneros pioneiros transformaram o mundo das histórias em quadrinho no Japão. Ele não é o inventor dos mangás, ele é o autor que os popularizou. O desenho de Tezuka é facilmente identificável: o traço é claro, as imagens simples, o enquadramento cinematográfico e o humor tem sempre seu lugar. O autor nunca hesita em se colocar em cena, com sua silhueta reconhecível principalmente por sua boina e seus óculos grossos. Ele, no entanto, não se coloca sempre em bons papéis e é expulso de cena às vezes.
Osamu Tezuka (1928 – 1989) Considerado o deus dos animes
Uma indicação de sua produtividade: a sua obra completa publicada no Japão reuniu cerca de 400 volumes, mais de 80.000 páginas (na verdade, sua obra completa chega a mais de 700 mangás em aproximadamente 170.000 páginas). A grande maioria dessas obras nunca foi traduzida do original japonês e continua inacessível aos leitores do Ocidente.
Infância
Nascido em Toyonaka, distrito de Osaka, a família mudou-se para Takarazuka quando ele tinha apenas cinco anos. Seus pais estimulavam muito a criatividade dos filhos (ele tinha um irmão e uma irmã mais novos). Sua mãe levava-os para concertos e para as peças do famoso Teatro de Takarazuka, e seu pai tinha um projetor de filmes em que exibia, por exemplo, O Marinheiro Popeye e Mickey Mouse. Influenciado por Walt Disney, mais tarde Osamu diria que assistiu à Bambi mais de 80 vezes.
Já nessa época ele fazia histórias em quadrinhos e criava personagens, muitos dos quais baseados em seus amigos e professores, ou, como o Higeoyaji, baseado em um desenho que um amigo fez do próprio pai. Quanto aos amigos, se inicialmente ele tinha problemas com as crianças da mesma idade, pouco depois participava dos clubes de história, geografia e música na escola e chegou mesmo a criar um clube para estudos sobre insetos. Ao andar pelos campos de Takarazuka para recolher e estudar insetos, ele adquiriu o senso de preservação do meio ambiente que apareceria posteriormente.
Quando se iniciou a Segunda Guerra Mundial, Osamu tinha onze anos e acabou trabalhando em uma fábrica nos anos finais desta. A guerra marcaria sua visão de mundo, e a paz e o apreço à vida se tornariam valores defendidos por ele em suas obras.
Início da carreira à consagração
Em 1945, então com dezessete anos, Osamu se iniciou como médico na Universidade de Osaka. E nessa época conhece Sakai Shichima que pouco depois, pede para ele desenhar um mangá em formato de livro baseado na história escrita por Sakai, Shin Takarajima (Nova Ilha do Tesouro), que acabou vendendo 400.000 cópias e trazendo alguma fama à Tezuka. Mas o início de sua carreira como desenhista de mangá se dá em 1946, um ano antes da publicação de Shin Takarajima, quando ele começa a escrever a tira O Diário de Ma-chan no jornal Shokokumin Shimbun (Jornal das crianças da escola de Mainichi).
Tendo realizado ainda alguns trabalhos em Osaka, Tezuka resolveu mudar-se para Tóquio onde achava que seria mais fácil publicar suas próprias obras. Teve suas expectativas frustradas até que um amigo lhe ofereceu uma chance e em 1950 surgia Jungle Taitei (Kimba, o Leão Branco, no Brasil).
A partir do sucesso de Kimba, pôde publicar outros sucessos sem tantas dificuldades e acabou chegando à Tetsuwan Atom (conhecido também por Astro Boy), sua obra mais famosa. O sucesso foi tanto que resolveu realizar um antigo sonho: fazer uma animação nos moldes das animações de Walt Disney. Formou um estúdio próprio em 1961, com o nome de Tezuka Osamu Production, depois chamado Mushi Production, e criou a série de desenho animado de Atom, uma das primeiras animações da televisão japonesa, que daria origem a uma explosão de animações (ou animes). Na vida pessoal, se formou como médico em 1951 e apesar de alguma dúvida manteve seu foco em gibis. Oito anos depois, casou-se com Okada Etsuko, com quem teria um filho e duas filhas.
Já firmado e famoso como artista, Tezuka procurou divulgar os quadrinhos japoneses ao redor do mundo e aumentar as relações entre os autores de diversos países, foi assim que conheceu o francês Moebius e se tornou amigo do cartunista brasileiro Maurício de Sousa.
Com dores no abdomên, Tezuka foi internado e acabou morrendo de cancêr no estômago aos sessenta anos, em 1989.
Astro Boy: a ascensão
Tezuka possui muitas obras importantes publicadas em quase todo o mundo, mas para efeitos de entendimento do “Tezukano”, somente falaremos da obra máxima de Tezuka, o “Astro Boy” (Tetsuwan Atom).
Astro Boy é o título de um mangá e animê de Osamu Tezuka e também o nome de seu principal personagem. A série original em mangá foi produzida de abril de 1952 a março de 1968, ganhando diversas adaptações para a televisão em anime.
Astro boy, a obra máxima de Tezuka
Por ter sido a primeira série animada exibida no Japão, tornou-se referência na área. As transmissões tiveram início a partir de 1963 e com seu sucesso deram origem à indústria japonesa de animação. Em 2007, a Panini comics lançou no Brasil uma versão do mangá inspirada na nova versão em animê da história original criada por Osamu Tezuka, com um total de três volumes.
Tezukano: A explicação
Esta denominação (repito: criada por mim mesmo para fins didáticos) refere-se aos estilos de animes que se mantiveram na mesma base que Tezuka. Esta base pode ser percebida quando Tezuka, ao ser perguntado sobre a sua opinião sobre a eclosão dos animes e mangás, arte esta popularizada através de suas mãos, respondeu que não entendera o rumo que os animes estavam sendo levados, ele se auto-indagou por que naquela época (e hoje também) os animes e/ou mangás sempre estavam envoltos por ocultismos, magias, extrema violência e sexualidade acentuada.
Então, depois disso, denominaram a arte do Tezuka, de forma completamente errônea de “Deus está morto” ou “Deus está dormindo”, devido à em nada a sua arte envolver o divino ou o plano espiritual. Tezuka não quis matar Deus, ele apenas quis apresentar uma obra que fosse aclamada por sua essência, por um enredo bem trabalhado e por traços limpos, suaves e tecnicamente impecáveis, e não por ser um anime ou mangá apelativo para magias, mulheres peitudas que quando lutam, apanham no início só para rasgarem a roupa ou porque espalha sangue e tripas por toda tela ou página.
Conclusão
O estilo Tezukano segue à risca tudo isso que foi dito no parágrafo anterior: uma obra que fosse aclamada por sua essência, por um enredo bem trabalhado e por traços limpos, suaves e tecnicamente impecáveis. Podemos ver este segmento muito facilmente no gênero Mecha (abreviatura de mechanic, que em inglês significa mecânico é um robô gigante (geralmente bípede) controlado por um piloto ou controlador).
O Mecha, na maioria das vezes, preza pela qualidade da estória a fim de prender o espectador somente por esse elemento, e não porque daqui a pouco alguém vai combater um inimigo vindo do mundo dos mortos que é uma mulher peituda com roupas colegiais. Não querendo falar que o Mecha seja 100% livre de sexualidade, ocultismo e violência, mas isso é dosado de uma forma a ser plausível ao que a trama quer passar.
Mechas recomendados por mim: Ghost in the shell, Gundam (qualquer um deles, mas em especial o 00 e o Wings), Patlabor, Code Gears, Gunm e o próprio Astro Boy, que apesar de ser um Kodomo (estilo de anime e mangá voltado ao publico infantil | Ex.: Pokemon) é muito interessante.
Mas existe um segmento da arte do anime e mangá pré-modernista que usa da própria violência, sexualidade e ocultismo exagerado, tão criticado por Tezuka para protestar ou como diz a tradução do nome, tentar achatar esta fonte da qual a maioria esmagadora dos animes “bebem”, este estilo é o “Superflat” (Denominação criada pelos estadunidenses especialistas em arte oriental) que será visto na próxima coluna.
Até lá!!! |